24 de Julho de 2019

CULTURA Sábado, 06 de Julho de 2019, 07h:08 - A | A

A Centenária Professora Maria Muller - Por Ubiratã N. Alves

Por Ubiratã Nascentes Alves

Maria Muller

Maria Muller

Nesta memória popular que se apaga conforme o soprar dos mornos ventos, de bom alvitre reverenciar a brilhante existência, digna de ser a rainha das professoras que travou pacífica luta, secular em favor da educação e das letras, escreveu desde poesias a livros, uma vida exemplar. Teve por ascendentes nobres estirpes como de seu avô Generoso Ponce, que mesmo aos 13 anos lutou na Guerra do Paraguai depois governador, seu pai era proprietário da Usina das Flexas no rio Cuiabá Abaixo, o Cel. João Pedro de Arruda e sendo genitora a Sra. Adelina Ponce de Arruda.

Viu a luz nesta urbe em dezembro 9 de 1898, sendo o nome inicial Maria Ponce de Arruda. Havendo como prioridade os estudos, recebe educação desde cedo no próprio ambiente familiar, desta forma precoce, já aos 5 anos estava alfabetizada e a seguir inicia-se na boa prática da leitura. Os resultados surgiram prontamente, logo aos 16 anos exerceu a cátedra na condição de "adjunta" na Escola Normal “D. Ester Zoron”, adiante veio a concluir seu magistério na “Pedro Celestino”.

A estréia no mundo literário inicia efetivamente em 1916, aos 17 anos ao publicar no jornal “O Povo” um artigo intitulado “Baia de Chacororé”, jamais deixou de escrever, fruto do preparo desde o alvorecer ao receber de seu avô Generoso, livros para habitual leitura da pequena Maria. Publicou artigos em vários jornais, "A Folha da Serra" - Campo Grande, "O Cruzeiro" e "A Cruz".

Adquirindo experiência em 26 de novembro 1916 na companhia de outras mulheres ativas nas letras, fundaram o pioneiro Grêmio Literário “Júlia Lopes”, ... a literata idealizora da atual Academia Brasileira de Letras, reunindo a intelectualidade feminina e que operou até o ano 1950. Inicialmente foi Presidente Leonor Borralho, Vice Maria Luíza Pimenta; 1ª Secretária Maria Ponce de Arruda e Tesoureira Maria Dimpina de Arruda Lobo. As primeiras redatoras da Violeta foram Thereza de Arruda Lobo, Regina da Silva Prado, Mariana Póvoas e Bartira de Mendonça. Portanto, ainda aos 18 anos incompletos, fez parte de seleta plêiade na associação que depois presidiu e manteve a circulação da revista “A Violeta”, durante 34 anos produzindo 309 edições !

Logo após Cuiabá completar 200 anos, em 26 de abril 1919 celebra núpcias com o futuro deputado estadual Dr. Júlio Strubing Müller, que viria a ser Interventor, equivalente a governador. Gerou um clã de primeira grandeza, que se espairou em todos escalões obtendo belos resultados.

A sua atuação como professora foi emblemática, iniciando adolescente e depois graduada, lecionou em inúmeros estabelecimentos, assim como na própria Escola Normal Pedro Celestino, no colégio de Poconé onde o esposo foi mestre e diretor, indo na lua de mel até lá em carro de boi. Ainda no famoso Grupo Senador Azeredo, conhecido por "Peixe Frito" em razão da merenda, neste local funcionou a Casa do Artesão, onde ela posteriormente veio a se tornar a sua diretora. Entretanto, o amor pela educação foi a mais importante lição ensinada pela rainha Maria Muller, dedicou 76 anos da vida aos alunos, deixou as salas de aulas aos 96 anos e por questões de saúde !

Transcorrendo o ápice da sua pena, diversificou em estilos diferenciados desde ... poesias, crônicas, contos, discursos, trovas e até ficcionais, assinados com alônimos vários tipo Sara, Lucrécia, Ofélia, Mary, Chloé, Vampira, Consuelo e Vespertina, além do usar seu próprio nome. No fértil período de letras realiza conquista singular, a primeira mulher a ingressar na Academia Mato-Grossense de Letras, a segunda em todo país, cadeira nº 7 e posse em 26 de janeiro 1931. Igualmente nesse interregno, desponta como líder feminina ao erguer uma firme bandeira em prol do voto das mulheres, outra vitória que foi reconhecida através da Constituição Federal de 1934, ainda conclamou todas mulheres mato-grossesnses reticentes para se inscreverem como eleitoras.

Ascendendo o esposo Júlio Müller, ao cargo de Interventor Estadual entre os anos 1937-45, trabalhos de maior relevância pode realizar em benefício da simplória sociedade, apesar de como 1ª Dama ser discreta, entretanto deveras participativa, através idéias, planejamentos e realizações. Ela fundou em 1940 o "Abrigo Bom Jesus", para crianças carentes e mais o "Abrigo dos Velhos".

Depois no ano de 1942, Maria Müller presidiu a Legião Brasileira de Assistência - MT, havendo nesse período prestado apoio para as famílias dos pracinhas em luta durante a 2ª Guerra Mundial. Foi também uma das fundadoras da Federação Mato-grossense pelo Progresso Feminino e ... Sociedade de Proteção a Maternidade e a Infância de Cuiabá, mais conhecido por Hospital Geral.

Um longo pacote de obras, foi entregue na visita de Getúlio Vargas – 6 a 8 de agosto 1941, o Palácio da Justiça, Grande Hotel, Residência Oficial dos Governadores, Hotel Águas Quentes, Cine Teatro, Centro de Saúde, outros, e a maior obra educacional até estes dias o "Liceu Cuiabano". Ainda mais, por intercessão fundamental da 1ª Dama, o 16º Batalhão de Caçadores do Exército, veio a ser instalado em Cuiabá, havia uma forte corrente que ansiava levá-lo para Campo Grande. Finalmente seu esposo entregou a 1ª ponte de concreto sobre o Rio Cuiabá em 20 de janeiro 1942.

O reconhecimento dos trabalhos ultrapassaram as fronteiras, assim veio a receber em 1952, o Diploma de “Miembro de Honor” pela Associazione Internazionale-Pro-Pace de Salerno - Itália. Logo em 1953, o Diploma de “Miembro Corriespondiente” pelo centro filosófico “Arca Del Sur” da República Oriental del Uruguai e “Diploma de Honor” do Conselho superior de Cultura do “Instituto Y Biblioteca Panamericana” da Argentina, dentre outras honrarias que lhe conferiram. Amealhou todas condecorações do Poder Executivo estadual, por igual as do Poder Legislativo, mais diversas Moções de Congratulações e sua maior honra, receber a comenda “Filinto Müller”.

A presença literata nos brindou de início em 1972, com uma obra sobre a "Família Arruda". Alguns tempo depois, em 1994, aos 96 anos em parceria com a musicista e poetisa Dunga Rodrigues nos oferece outro livro "Cuiabá ao longo de 100 anos", apresentação de Lenine Póvoas. Logo após em 1998, para celebrar o centenário de existência em alto estilo, veio a publicar uma agradável obra "Sons Longínquos", poemas selecionados de quando rompiam-se os preconceitos. A sua vida e lavra, guindaram-na a membro honorário do Instituto Histórico e Geográfico de MT.

Entre outras homenagens esparsas, somamam-se da magistratura que prestou deferências ao reconhecer as lutas pioneiras por direitos, assim em 1992 o TRE na gestão do Des. Odiles Souza, por ser das primeiras mulheres a possuir título de eleitor, por votar e a mobilização nesse sentido. Sua atuação lhe propiciou outra significativa homenagem, um das escolas mais tradicionais de Cuiabá, o Colégio Estadual de Mato Grosso, depois Liceu Cuiabano, veio a ser rebatizado como Liceu Cuiabano “Maria de Arruda Müller”. Tem o retrato na galeria da saudade, organizado pela Presidente Eunice Weaver, na sede - RJ, por haver fundado a Sociedade dos Lázaros em Cuiabá.

A obstinação pela cátedra levou-a a dar mostras inquestionáveis de sua força de vontade, pois aos 95 anos de vida, apresentou-se como voluntária no bairro Bela Vista para alfabetização de adultos, obtendo resultado notável ao ensinar a ler e grafar uma de suas alunas com 80 anos !

A professora Maria Müller, no centenário de sua existência oferece uma profícua lição para todas as faixas etárias de nossa coletividade, celebrou com a seguinte frase os festejos do seu centenário: “Ser plenamente realizada é poder junto a vocês, reviver meus 100 anos em um dia”. Quando ela concedeu entrevista para a revista “Acontece”, Ano 4 - nº 11 em janeiro de 1999, revela um dos segredos da longa vida ... “Estar em Comunhão com a paz espiritual do Universo”. O maior galardão por tantas décadas na incansável labuta professoral, ocorreu em 2002, quando o próprio Ministro da Educação - Paulo Renato de Souza, veio até sua casa entregar-lhe a medalha da Ordem Nacional do Mérito Educativo, criada em 1955 pelo presidente Café Filho. Comenda outorgada a marcantes personalidades que prestaram serviços excepcionais à educação, e a Imortal Maria de A. Müller tornou-se não Rainha, mas a "Professora do Brasil" aos 103 anos, o evento teve imensa repercussão nacional e diversos jornalistas do país vieram para entrevistá-la.

Aproveito aqui para deixar também o meu depoimento, ... nessa época era secretário-geral da academia e certa vez recebi um bilhete de sua cuidadora, de início pensei tratar-se de um trote, mas comecei a entender ao ver no alvo envelope a remetente, ficando de pronto em mais sentido. Letra trêmula, mas ao melhor estilo calígrafo, pedia ao Sr. Secretário indicar eventual pendência na tesouraria, curioso o inabalável senso de responsabilidade, pessoalmente levei a vazia resposta. Havendo ressucitado o chá acadêmico, guarnecido com bolo de queijo, arroz e salgadinhos finos, levo uma mostra dos tira-gostos e por essa atenção, foi tratado como fidalgo o "escriba das atas", mais outras indagações recebi, respondia com notícias das reuniões e quitutes, até findar a gestão.

Maria Müller foi esposa, mãe, avó, bisavó e tataravó, gerou 7 filhos: Elen Maria, Augusto Frederico, Hugo Filinto, Helena Julia, Adelina Rita, Terezinha, Julio Frederico Neto, que lhe deram 23 netos, foram 57 bisnetos e 5 tataranetos, totalizando extensa descendência 92 pessoas !

Cerrou definitivamente os olhos em dezembro 4 de 2003 bem próximo de fechar 105 anos, no Hospital Sta. Rosa de infarto às 9ː30 horas, deixando órfãos os alunos, filhos do seu intelecto. Entrando agora na história, nos delega um formidável exemplo de vida para as gerações pósteras. Sensibilizada a governadora interina Iraci França decretou luto oficial no Estado durante 3 dias, seu corpo enfim descansa no Cemitério da Piedade, vizinho ao casarão onde, por último morava.

 Poema

Aspiração

 Bojando a vela sobre o mar sem alma,

Vai, asa branca, ao ritmo do vento.

Circunfletindo, oscila e corta a espalma

Imensidão que espelha o firmamento.

 No ar rarefeito treme a leve palma...

Se a tempestade vier, o oceano é cruento...

E ela não sente quando a tarde é calma,

Insídias de borrasca em céu sedento.

 Quisera ver minha alma - neste instante -

Como a vela boiar, e se sumindo

No horizonte, indo além, bem mais distante...

 E indo a vogar meu pensamento com ela,

Livre da ronda das paixões (que lindo!)

Como a alvura que aclara a branca vela.

Publicada em 12/04/2008 Etiquetas: Brasil, Maria de Arruda Müller - Poetisa

Imprimir


Comentários