18 de Junho de 2019

OPINIÃO Sexta-feira, 07 de Junho de 2019, 10h:51 - A | A

Elza Arauz Coani Perez: primeira fotógrafa profissional de Mato Grosso

Neila Barreto - Hipernoticias
Cuiabá
neila.barreto@hotmail.com

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Nascida na Bolívia. Chegou em Cuiabá em 1949, casada com o fotógrafo uruguaio Arturo Peres. Trouxeram um conceito inovador na fotografia para Cuiabá. Começou a fotografar aos 19 anos, sendo a primeira mulher a atuar como fotojornalista profissional para os jornais da cidade, bem como, no atendimento de eventos e outros. Foi fotógrafa do governo Pedro Pedrossian (1966-1971). É considerada a primeira mulher fotógrafa profissional de Cuiabá e Mato Grosso.

Conforme a historiadora Maria Auxiliadora de Freitas, em seu livro Cuiabá-Imagens da cidade, dos primeiros registros à década de 1960, editado pela Entrelinhas, Elza Perez casou-se com o também fotógrafo, “ Arturo Peres (Foto Arturo) que atuou nas décadas de 1940 e 1950 fotografando aspectos urbanos e eventos sociais. Seu estúdio localizava-se na rua Cândido Mariano, n° 139, onde funcionou durante 23 anos”. Suas imagens estão estampadas em documentos da cidade, no Museu da Imagem e do Som – MISC e, boa quantidade, em acervos particulares em Cuiabá.

Segundo Elza Perez, quando viva ainda, em depoimento a jornalista Miriam Botelho, informou que “Gostaria que as pessoas comprassem as fotos, tem muita coisa aqui que faz parte da história local. Antigamente todo mundo a chamava de a japonesa (apelido dado pelos fotógrafos da época), pagavam até avião para que eu fosse fotografar os eventos. Agora tudo isso faz parte do passado”.

Miriam Botelho deixou registrado no jornal Diário de Cuiabá que, os prédios históricos, políticos, empresários, a moda, as festas e um cem números de fotos em preto e branco ou coloridas que retratam a Cuiabá da década de 40 até a década de 80, foram fotografadas por mãos delicadas, e olhar agudo, da fotógrafa Elza Arauz, que, à época, faziam parte do acervo particular da fotógrafa.

“O meu marido fazia as fotos com os políticos. Nós dividíamos o trabalho. Depois que ele faleceu continuei fotografando. A fotografia sempre foi a minha profissão. Gostava de enfrentar a concorrência com os outros fotógrafos, todos homens”, relembra. Ela também enfrentou o preconceito: “fotografia profissional era coisa de homem, e mulher tinha que ficar em casa cuidando dos filhos”, registrou Botelho.

Para Freitas, Elza Perez deu continuidade aos trabalhos e desenvolveu uma linha de registros fotográficos importantes para Cuiabá, seguindo as linhas fotográficas do marido, com quem aprendeu a arte de fotografar. Deixou as suas impressões em forma de forma de fotografias que hoje comprovam a evolução da cidade de Cuiabá e as suas mudanças, em relação ao urbanismo e habitantes espalhadas por todos os cantos da capital mato-grossense.

Nos álbuns, pérolas de momentos significantes da história local, como por exemplo: a chegada dos pracinhas da 2a Guerra Mundial, prédios antigos, que hoje abrigam grandes lojas, a antiga catedral, festas em clubes como o Sayonara e Dom Bosco, os carros em desfiles nos carnavais regados a champanhe e serpentinas. E, ainda posse e visita de políticos ilustres, evidenciados em preto e branco, ou a UFMT, e também os concursos de miss, formaturas, desfiles, testemunhou Botelho.

Ainda viva, Elza Perez testemunhou que, começou a fotografar aos 19 anos, do anônimo ao famoso de hoje, da elite ao cidadão sem muitos recursos, todos passaram por seu clique. “Teve uma época em que roubamos muitos clientes do Chau. Era uma época em que não faltava trabalho, e as fotos tinham uma melhor qualidade. Sempre tive um cuidado maior na hora de revelar os filmes. Hoje em dia as pessoas não revelam os filmes direito, diz - mostrando uma de suas fotos, tiradas há 40 anos atrás. Aposentada já há um bom tempo, ela ainda sente falta dos convites para fotografar, da pressa para não perder a grande foto. Hoje, algumas das suas máquinas foram alvo de ladrões, e muitas de suas fotos, emprestadas para estudantes ou pesquisadores também estão desaparecidas. “ As pessoas não devolvem”, sintetiza, revelou Elza Perez a Botelho, à época da entrevista.

Elza Perez foi fotógrafa do Jornal do Estado de Mato Grosso, e teve como chefe o jornalista e escritor Pedro Rocha Jucá, membro da Academia Mato-grossense de Letras. Com Arturo Perez Elza teve as filhas Natalia Coani Arauz Peres e Dolores Arauz Peres, aliás minha colega do Colégio Estadual de Mato Grosso e companheira dos esportes mato-grossenses, lá pelas épocas do Clube Náutico de Cuiabá, a qual faleceu ainda jovem. 

Para Boris Kossoy “(...) como a fotografia é uma forma de expressão visual onde o visto é transmitido de forma direta para o intelecto e a escrita uma forma indireta, a escrita deve ser evitada dentro do quadro da imagem como desenho gráfico (...) para que a fotografia dispense a escrita para a passagem de sua informação, é necessário que a linguagem fotográfica esteja definida por parte do fotógrafo que a executa e que vive o momento do qual ele fez um enquadramento (...) Tudo isso bem definido, pode passar (...) informação (...)”

Foi isso que Elza Perez procurou fazer. Foi isso que ela fez.  Partiu para o infinito em 2006.   

(*) NEILA BARRETO SOUZA BARRETO é jornalista, escritora, historiadora e Mestre em História e escreve às sextas-feiras para HiperNotícias.

 E-mail: neila.barreto@hotmail.com 

                                                      

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